quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Crowley
Fernando Pessoa




PESSOA-CROWLEY Á VENDA: COMPREM!

Leio um artigo num diário espanhol (cliquem abaixo) e fico espantado: a família de Pessoa (Fernado o poeta, não o Pessoa que escrevia sobre as pombas e que fez enlouquecer ao tio do Zuca num romance de Machado) vende 800 manuscritos do baú mais famoso de Europa. Os escritos poderiam atingir o preço de 400.000 euros. Eu já tinha lido algo disto, mas agora é verdade.Talvez estejam a achar: “isto só acontecer num país como Portugal”. Não se enganem, a Alemanha vende ao Thomas Mann. Hoje tudo está á venda.

Sempre me fascinou o interes de Pessoa pelo oculto, e mais quando soube da conexão com o ocultista britânico Crowley, uma personagem ainda mais fascinante do que Pessoa. Isto é o mais importante do artigo: a Biblioteca Nacional de Portugal acha o mesmo e vão tentar de comprar o dossiê Pessoa-Crowley. Ángel Campos Pámpano, explica ao começo da sua antologia de Pessoa que o poeta conheceu pessoalmente ao ocultista britânico, que foi lhe visitar a Lisboa em 1930 e desapareceu misteriosamente depois de dois dias lá. Os documentos do dossiê Crowley são por volta de 70 cartas que Crowley e Pessoa intercambiaram entre 1929 e 1931, incluindo a explicação do falso suicídio de Crowley no escarpado da Boca do Inferno em Cascais (ele tinha passado a Espanha por Vilar Formoso). Depois Pessoa começou um livro que não terminaria. Há várias versões do livro -também á venda-. O dossiê Crowley poderia atingir um preço de 50.000-100.000 euros. Se fossem os herdeiros do poeta, que é que faziam? Não somos: uma boa inversão em tempos de crise.



Enrique (2º NA)



5 comentários:

Departamento Português disse...

Caro Enrique, li essa notícia ontem num diário português e também fiquei algo surpreendida. Uma amante de Pessoa (como sou) não pode mais do que ambicionar que lhe saia a Lotaria ou o Euromilhões para poder comprar esse espólio. Contudo, permita-me discordar num ponto do seu artigo, Cowley é mais fascinante do que Pessoa? Deve ser o meu amor ao poeta que foi tantos, mas não consigo acreditar. Pessoa é um mundo, e de muito poucos se pode dizer isso.
Gostei muito do artigo. (Ahh e para o caso de não se ter percebido bem: eu comprava, sem dúvidas)

Susana

alunos disse...

Cara Susana,

Pessoa é, obviamente, indiscutível como poeta. E é mesmo uma personalidade fascinate, não ha comparações possiveis. Mas Crowley era MUITOS mundos. Não sinto simpatia pela personagem, mas viveu muito e viveu ao límite: o ocultismo, o satanismo, a magia, a montanha, também a poesia, a sua possivel participação em estranhas estórias da Guerra,… O simples episodio da sua breve estância em Portugal… Houve mortes na sua “abadia” en Sicilia nos anos 20, antes do seu contacto com Pessoa… Teve de ver na morte do filho de Robert Plant –Led Zeppelin- o gosto de jimmy Page pelos objectos relacionados com Crowley –at comprou Boleskine House, a sua casa no lagoa Ness-,… Muitas coisas, muito interesantes também. É por isso que digo que a personagem é fascinate.

Enrique.

Luísa disse...

Caro Enrique,
Pessoa era também muitos mundos! Como ele dizia "Sou plural como o Universo". Pensou o impensável, criou novas e inéditas visões da existência, morreu em 1935e ainda hoje nos supreende! Pessoa pediu os óculos ao morrer e nós é que, ao pé dele, somos míopes da modernidade!
Beijinhos
Luísa

Departamento Português disse...

A verdade é que o entendi, Enrique, mas a minha necessidade de debate (ultimamente tão pouco exercitada) exigia-me que lhe lançasse o desafio. Para além de que a minha consciência de portuguesa não conseguiria descansar sem defender o(s) meu(s) poeta(s).
Como nota de fascínio, é óbvio que Crowley foi um mundo fantástico, cheio de recantos pouco claros e momentos de "beira do abismo"; mas e o que dizer de um homem (aparentemente pacífico) que tinha milhões dentro de si? Um homem que chamando-se Pessoa foi tantas pessoas numa só? Um homem que viveu a passividade na vida, mas o frenesim na mente? E se é pelos becos menos iluminados que vamos, dizem os entendidos que Pessoa deixou um mapa astral em que previu a própria morte, errou o cálculo por seis meses mas acertou no dia, no ano e na hora. Ao contrário do que muitos pensam Pessoa não era "apenas" muitos poetas, era também muitos homens (engenheiros, pastores, médicos...).

:)

Susana

Departamento Português disse...

Bem-vinda Luísa, que bom ter mais contributos para este nosso combate de esgrima (de argumentos, não se pense mal). Essa sua última frase parece-me basilar, conseguiu resumir aquilo que eu levaria anos a dizer. Nunca uma etiqueta serviu tão bem a um homem como a de modernista a Pessoa, e ele que teve tantas outras. Hoje em dia, provavelmente, seria internado como mais um esquizofrénico com um caso agudo de múltipla personalidade, e vivam a psicologia e os discípulos de Freud!

Susana