quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Malabarinto é música brasileira

Quem, como eu, não foi ao Carnaval no Brasil (Rio, São Paulo, Recife, sambódromo de Manaus, Santa Catarina, etc.), pode ouvir um bocadinho aqui, no programa Malabarinto, de Canal Extremadura Radio. Se não conhecem, este é um programa inteiramente destinado à música brasileira, dirigido por Lorenzo González. Uma maravilha.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Tamanduá, por F. Terni e C. Röhrig

Entre os galhos retorcidos
do nosso grande cerrado,
mora um bicho bem antigo,
com um focinho espichado.


Tamanduá é desdentado,
por isso não precisa
correr para o dentista.
Mas bem que deveria

marcar hora no oculista.

Quase cego e meio surdo,
seu modo de andar
parece um tanto absurdo.
Balança de um jeito engraçado,
pende sempre para um lado,
Bicharada
todo desengonçado.

Pra fincar no cupinzeiro
tem três garras
que ficam na palma da mão;

só lhe resta o outro lado
pra se apoiar no chão.

Caminhar não é a dele.
Seu negócio é nadar.
Sorte do tamanduá,
que pode se refrescar.

Sua língua muito comprida,
também é bem grudenta.
Coitado do cupim
que naquela língua senta.
E ai de quem deixar
um tamanduá chateado:
quando morde a mão da gente,
não solta, esse desdentado!



Do livro (excelente, muito belo, diga-se) Bicharada em Perigo, cuja autora é Fábia Terni. Nas ilustrações participam uma dúzia de artistas; no caso do tamaduá os desenhos são realizados por Christine Röhrig. Este livro infanto-juvenil (grande sorte a dos miúdos!) é editado pela Editorial Girafinha, de São Paulo. Se alguém gostou do poema, podia deixar um comentário?

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Manga Ancha. Revista de Literatura

Manga AnchaDou notícia de uma excelente revista, que trata de literaturas exóticas (isto é, qualquer uma que não seja a inglesa, a francesa ou o romantismo alemão). O formato ligeiro, o papel agradável, a capa e as ilustrações (que merecem algo mais do que uma olhadela), as páginas limpas, estão à procura do curioso leitor. Escritores bem escolhidos dos Marrocos, Espanha e Portugal conseguem construir, a partir da diversidade (três línguas, variedade textual), uma revista coerente. Não é momento de nomear todos os autores que escrevem neste segundo número, mas só dizer que os portugueses são Inês Pedrosa, Nuno Júdice, Rui Costa e Sara Monteiro. E não me esqueço dos tradutores (ai, a minha ignorância, que olha para as letras árabes como se fossem rascunhos ininteligíveis), que são bons porque não reparamos neles. A não perder.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Baba de Camelo

Baba de camelo Imagem roubada ao Bernardo


Ingredientes:
1 lata de leite condensado
5 ovos
nozes picadas
Preparação:
Coze-se o leite condensado na panela de pressão durante mais ou menos 50 minutos. Entretanto, separam-se as gemas e as claras dos ovos. Batem-se as claras em castelo e reservam-se.
Quando o leite condensado já está cozido juntam-se-lhe as gemas dos ovos, convém que o leite esteja quente para que as gemas cozam enquanto se faz a mistura. Depois incorporam-se as claras em castelo, envolvendo para que não quebrem.
Ao servir pode decorar-se o doce polvilhando-o com frutos secos picados.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Bem-vindos ao Carnaval de Navalmoral!

O Carnaval já está aqui! É por isso que se alguém logo te convida para vires nestes dias a Navalmoral, aceita o convite e não duvides de que será a melhor escolha. Não poderás esquecer o Carnaval desta vila, porque é uma festa popular, do povo para o povo, e vistas o traje que vestires, sentir-te-ás um rei ou uma rainha por uma noite. Este é um Carnaval com muita tradição e cada dia está mais vivo, mas precisa da tua imaginação para crescer. Encontrarás divertimento, variedade de actividades, festa até ao amanhecer, gente amigável por toda a parte, desfiles cheios de cor, risos, animação, etc. Se não dispões de um disfarce, não haverá problema, qualquer pessoa pode ajudar-te no que precisares e como a letra da canção popular diz: "Estes Carnavalitos são para nós e os do ano que vêm..."


Benito e Violeta (1º Nível Intermédio)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Miguel Torga


Ficha
Poeta, sim, poeta...

É o meu nome.

Um nome de batismo

Sem padrinhos...

O nome do meu próprio nascimento...

O nome que ouvi sempre nos caminhos

Por onde me levava o sofrimento...
Poeta, sem mais nada.

Sem nenhum apelido.

Um nome temerário,

Que enfrenta, solitário,

A solidão.

Uma estranha mistura

De praga e de gemido à mesma altura.

O eco de uma surda vibração.
Poeta, como santo, ou assassino, ou rei.

Condição,

Profissão,

Identidade,

Numa palavra só, velha e sagrada,

Pela mão do destino, sem piedade,

Na minha própria carne tatuada.
[de Câmara Ardente, 1962]


Tenho amigos em Portugal que o acham o melhor escritor português. Isso, no país de Pessoa, Camões ou Eça não é qualquer coisa. Eu não descobri até a última viagem a Portugal, em Novembro no ano passado. No domingo apanhei “Bichos” e o seu romance mais importante, “A Criação do Mundo”. O cão Nero, o gato Mago, o sapo Bambo, o famoso Miura, mas também Madalena, Ramiro e o Senhor Nicolau, quase outra metamorfose. Animais humanos e humanos animalizados. Se ainda não leram, apanhem-no.
Chamava-se Adolfo Correia Santos, escolheu o pseudônimo pelos dois Miguel que admirava –Cervantes e Unamuno- e pela forte planta brava de montahna, típica da paisagem da sua terra e os seus mundos literários de Trás-os-Montes. Teve uma vida dura, como os seus personagens: em 1917, aos dez anos, marchou para Porto e fez todo tipo de tarefas numa casa de parentes da sua família. Foi despedido num ano pela sua insubmissão e atendeu dois anos ao Seminário, muito importante na sua formação. Emigrou para Brasil em 1919, com doze anos para trabalhar na fazenda do tio, na cultura do café. O tio recompensou os seus cinco anos de serviço pagando os seus estudos de Medicina em Coimbra, onde começa também a sua atividade literária.
A sua insubmissão levou-o a romper com publicações literárias, e a criticar a praxe e tradições acadêmicas, e também a ditadura de Salazar (e de Franco, na Criação do Mundo). O resultado foi a expulsão da sua mulher, a belga Adrée Crabbé, da universidade, onde ensinava francês. Ao chegar a República, solo e orgulhoso, também declinou as ofertas e homenagens.
Acreditava numa identidade ibérica –há duas antologias de Poemas Ibéricos-, não numa união, mas em Portugal e Espanha com uma identidade forte dentro de Europa. Teve uma grande presença em Espanha e a sua morte em 1995 teve um importante impacto.
Até então foi o eterno candidato português ao Nobel, que sem dúvida merecia. Recebeu o Prémio Camões em 1989.
É um prazer ler a Torga pelo seu uso particular da língua. Um dos meus colegas –e, ainda, amigo- diz que não gosta de um livro se o autor não lhe obriga a apanhar o dicionário. Torga é um destes, sem dúvida nenhuma.
Li “Bichos” em Dezembro, e agora estou com “A Criação do Mundo”. Ofereceram-me “Portugal” e recomendaram-me os “Diários”. Também li uma antologia pequenina bilíngüe da sua poesia: “La Única Paz Posible es no Tener Ninguna”. O homem que escreveu esta frase é mais do que um autor do que gostas.
É um prazer quase maior ouvi-lo (.http://www.youtube.com/watch?v=28b3aLAdHFU). Este blog é outra coisa com a voz e a enorme presença de Torga, que começa a falar da sua homenagem á mulher de Trás-os-montes e termina a falar da sua missão como escritor.
Enrique, 2ºNA.
Links:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Miguel_Torga
http://www.elmundo.es/papel/hemeroteca/1995/01/18/cultura/23530.html

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Aos alunos de 1º ano, nível básico!!!

Para os que não têm podido vir às aulas e para que os que têm vindo não se esqueçam:

teste no dia 2 de Março!

Susana

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Portalegre Jazzfest 2009

cartaz Portalegre Jazz
De 20 a 28 de Fevereiro, tem lugar em Portalegre o 7º Festival de Jazz. Vale sempre a pena assistir a espectáculos com tanta qualidade e aos quais nem sempre temos acesso.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Rio de Janeiro em Nómadas (RNE)

A Cidade Maravilhosa (olha, começamos bem, com um tópico já bem antigo) teve o seu espaço no programa Nómadas, da Rádio Nacional de Espanha no passado 31 de Janeiro. Este é um programa de viagens, destinado a turistas (palavra que agora é feia, deve-se dizer viajantes, que fica com mais charme) espanhóis. O programa é interessante já que percorre aqueles espaços míticos que todos temos ouvido (Ipanema, Copacabana, Corcovado, Maracanã, uma favela, etc.) e é ainda de relevo porque aqui se pode ver o que procura o turista espanhol de classe média. Por isso quase nada se diz de escritores, livrarias ou teatros. Há, sim, três filmes: Estação Central do Brasil, Cidade de Deus e Bossa Nova. Ouçam-no aqui e comentem depois.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

II Certame Literário Hispano-Luso Infantil e Juvenil (Villanueva del Fresno)

A Câmara Municipal de Villanueva del Fresno (Badajoz) organiza a segunda edição deste Certame Literário Infantil e Juvenil. Podem participar estudantes, quer de Espanha quer de Portugal, sendo a data limite o dia 30 de Março.
Não é este o único certame, pois existe também um Certame Literário José Antonio de Saravia, que já atinge a décima edição.
Curiosa a vida deste vilanovense, que nascido nesta pequena localidade em 1785, morreu na Ucrânia, em 1876, depois de alcançar o grau de general do exército do czar da Rússia.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

A brincar com a língua

Agora que acabou o Curso Monográfico Português para Viajar, eis dois pequenos exercícios, feitos por alunos:

O Tó fez umas obras fáceis, baratas, bastante criativas, divertidas, enormemente inteligentes, efectivamente hospitaleiras, espectaculares!

(Rafa, Isabel e Maribel)


O Zé tem dois gatos pretos, felizes, formosos, saudáveis, carinhosos, insaciáveis, trapalheiros, incrivelmente desedificantes, complicadamente incompreensíveis, desmancha-prazeres, desvergonhadamente desagradecidíssimos.

(Valentín, Rubén e Laura)


Qual é a característica destes textos? Fácil: a primeira palavra tem uma letra, a segunda duas, a terceira três, etc. Agora esperamos os vossos textos: participem! escrevam! Caso gostarem destas brincadeirinhas, podem visitar Verbalia, uma página com jogos em catalão, italiano e espanhol.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Gastronomicamente falando

Brigadeiros

Os brigadeiros são um doce brasileiro que se serve principalmente nas festas de anos das crianças, costumavam servir-se depois de cantar os “Parabéns”.
Têm este nome porque surgiram durante a eleição de 1945, e foram feitos para conseguir fundos para a campanha do Brigadeiro Eduardo Gomes.


Ingredientes (+/- 20 porções):
60 g de chocolate em pó
1 lata de leite condensado
2 colheres (sopa) de leite
30 g de manteiga
óleo
chocolate granulado

Preparação:
Num tacho, misture o leite com o chocolate em pó e o leite condensado. Junte a manteiga e leve a lume brando, mexendo sempre até o preparado se despegar do fundo do tacho.
Deite a massa dos brigadeiros num prato untado com um pouco de óleo, para evitar que se agarrem, e deixe arrefecer.
Quando a temperatura da massa o permitir, molde as bolinhas com as mãos e passe-os pelo chocolate granulado. Coloque em caixinhas de papel frisado e sirva frios.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Cepaim na EOI

Na quinta-feira passada foi entregue a Organização Não Governamental Cepaim o dinheiro da tômbola solidária que se realizou no dia 17 de Dezembro. A quantidade atingida foi de 400 euros, o que foi considerado tanto pelo pessoal da Cepaim como por aqueles que formamos parte desta pequena Escola de Línguas um motivo de satisfação. Agora é só desejar o melhor para os trabalhadores e voluntários desta ONG que trabalham para melhorar as condições de vida dos migrantes.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Concurso de Microrrelatos


Acabou o I Concurso de Microrrelatos, aqui vos deixamos os vencedores em cada uma das categorias. Mais uma vez agradecemos a todos os alunos a participação.

Nível Básico
CARAVANA QUIETA

Não há longe nem perto no deserto. Só o céu constelado guia os passos dos marinheiros da areia. Mas nesta noite estou perdido. Não vou a nenhum sítio.

Trinta anos há que não há chuva nesta terra seca e justamente hoje, a noite que sai a caravana, as nuvens escondem as estrelas.

Rubén Tamarit - Curso Monográfico


Nível Intermédio
UMA VIAGEM A NENHUMA PARTE
Um dia acordei cedo. Levantei-me rápido porque estava com muita pressa. Não sabia o porquê. Preparei-me para fazer uma viagem. Fiz a minha mala. Sempre tomo café com leite ao pequeno-almoço, mas nesse dia não tomei o que era costume. Saí da minha casa com aparência preocupada. Eu estava muito estranhado. O trânsito na cidade era muito intenso. Todos os carros iam na mesma direcção. Tudo parecia pré-dirigido. As pessoas pareciam seguir uns parâmetros de comportamento iguais. As pessoas caminhavam com inquietude e depressa. Seja por terem saído com atraso das suas casas ou por terem ouvido alguma notícia trágica, as pessoas queriam abandonar a cidade.

Todos os semáforos estavam vermelhos. No momento de mudar um semáforo atravessei a passadeira para peões. Cheguei à estação. Pedi um bilhete. O empregado perguntou-me para onde queria reservar o bilhete. Eu respondi que para nenhuma parte. O empregado disse-me que o último comboio de passageiros já tinha partido. Nesse preciso momento reparei que estava na minha cama.

Luis Carlos Izquierdo - 2º NI


Nível Avançado
VIAGEM A NENHUMA PARTE
JÁ CONHECE O PAÍS DE NENHUMA PARTE? NÃO ESPERE MAIS!
Informações e preços: Agência Impossível 1234567890
Apareceu no jornal. Liguei o telefone: "É um paraíso onde se podem encontrar todas as coisas, as palavras não ditas, os beijos não dados, as ideias pensadas mas não realizadas..." "E não haverá coisas demais para eu ir lá?" Eu perguntei teimosamente. "Fiquei descansada, há lugar suficiente para tudo e todos". No entanto, comecei a lembrar-me da minha mãe a gritar-me: "Assim é que não vais chegar a parte nenhuma". Será que eu própria já comecei a viagem? Decidi compara um bilhete para mim e outro para a minha mãe.

Elena Manrique - 1º NA

sábado, 24 de janeiro de 2009

Cimeira Ibérica de Zamora: línguas

Será que o português vai deixar de ser uma língua exótica no ensino primário e secundário nas regiões fronteiriças espanholas? Vejam o que diz El Periódico Extremadura: Y en educación, España y Portugal han hecho una apuesta fuerte para potenciar el aprendizaje de sus respectivas lenguas a ambos lados de la raya, algo que en Extremadura será una realidad a partir del próximo curso en diez colegios. A imprensa portuguesa é clara: Cimeira Ibérica: Portugal e Espanha comprometem-se a promover as línguas ibéricas.
Vamos ver, em poucos anos, como os estudantes de ensino obrigatório e de secundário não obrigatório, vão poder escolher, como matéria de opção, português. Uma boa notícia, não acham?

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

O que nos faz falta

O artigo que a Cristina escreveu ontem no blogue do Departamento de Inglês deixou-me a pensar e é impossível não estar de acordo com ela. Claro que, quando estamos fora do nosso país, sentimos falta da nossa casa, daqueles que amamos, mas essa saudade acaba por passar a fazer parte de nós, são os pequenos detalhes que nos provocam aquela dor fininha e nos dão vontade de voltar a correr.
Eu sinto falta do sabor da água. Tenho sempre que trazer leite (ainda que não seja fã de produtos lácteos) e hoje acordei com vontade comer esparregado - de grelos, de espinafres, de nabiça ou até mesmo de favas.




Aqueles que já viveram no estrangeiro, aqueles que actualmente o fazem (como eu) de que é que sentem mais falta?
Susana

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Vãs palavras

Nestes tempos que dizem ser críticos, onde pode haver muitas palavras com explicações de toda classe - com algumas deles é dificil segurar a barra-; eu acredito que acudir à poesia procurando um bocado de beleza podia ser um bálsamo ante todas as lenguagems vãs e vazias, ou enganosas, e de passagem fazer uma piscada a Susana e a sua poetisa favorita.

Apesar das ruínas e da morte,
onde sempre acabou cada ilusão,
a força dos meus sonhos é tão forte,
que de tudo renasce a exaltação
e nunca as minhas mãos ficam vazias.

Sophia de Mello

Obama por Mia Couto

Hoje, obviamente, a notícia é a esperançosa tomada de posse de Barack Obama; podem seguir a noticía na imprensa mundial, seja Público, Expresso, Folha, Rádio Nacional de Angola, Notícias (de Maputo, Moçambique) ou O Jornal de Fall River (Massachusetts, EUA). Vejam o que escreveu, há uns meses, o genial escritor moçambicano Mia Couto. O texto está tirado deste blogue; há uma versão em espanhol neste outro. Também podem ler este artigo do jornal espanhol Público acerca de Nilo Peçanha, primeiro presidente preto do Brasil.

E se Obama fosse africano? Por Mia Couto

Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.
Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.
Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de "nosso irmão". E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.
Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: "E se Obama fosse camaronês?". As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.
E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?
1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.
2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-lhe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-lhe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.
3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente "descobriram" que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado 'ilegalmente". Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.
4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um "não autêntico africano". O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos "outros", dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).
5. Se fosse africano, o nosso "irmão" teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada "pureza africana". Para estes moralistas –tantas vezes no poder, tantas vezes com poder– a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.
6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado – a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.

Inconclusivas conclusões
Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.
Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.
A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos – s pessoas simples e os trabalhadores anónimos– festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.
Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.
No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.
Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Portugal, Espanha, futebol, 2018

Já repararam na importância desta notícia? Pode ser lida no Público, Expresso, Folha,...
Agora, simplesmente, começa a corrida e nela estão: a Inglaterra, a Rússia, a Bélgica e a Holanda (estes dois países em conjunto), o Qatar, a China, o Japão, a Austrália, os EUA e o México.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Pharmacia Popular em Macau

Quando forem a Macau, e caso tiverem uma constipação, já sabem onde podem adquirir os vossos medicamentos para combater os calafrios e o mal-estar geral. É perto, aqui no Largo do Senado.
Obrigados pela fotografia, Sonia e Eric!

Nota bene: a fotografia é de Dezembro de 2008.